terça-feira, 15 de abril de 2008

Sobre o livro.

Como pode ser visto nesse blog, muita gente já escreveu sobre este livro, mas eu nunca contei como ele nasceu. Quando o livro completa 4 anos desde sua versão inicial, vão aqui minhas palavras.

“Sexo Anal” teve início em 1996 enquanto eu escrevia “Virgínia Berlim – Uma Experiência”. VB, como gosto de chamá-lo, seria meu primeiro e grande livro; era um projeto enorme e extremamente pretensioso, cheio de citações da cultura pop, digressões infinitas, um porre!, hoje vejo. Ao mesmo tempo em que ia abandonando VB, começaram a surgir filmes e livros que faziam algo parecido com o que eu propunha... Tarantino & Hornby e adjacências. Fiquei com mais de quatrocentas páginas manuscritas do "Projeto VB" em minhas mãos sem saber o que fazer. A machadada final foi o livro de Daniel Galera, “Até o Dia em que o Cão Morreu”, lançado em 2002: achei-o muito parecido com VB. Para mim existia um grande complô para que eu não finalizasse VB. Mas hoje sei que o que aconteceu de verdade foi que eu nunca sentei para editar aquelas páginas todas escritas a mão, cheias de anotações, para escrever o livro de fato. O tempo ia passando e eu fingindo que estava escrevendo um grande livro. Fingindo até para mim.

Quando acabei de ler o livro do Galera, atirei-o longe e disse: vou escrever exatamente o contrário de VB. Como seria o livro se tudo acontecesse ao contrário?

Em VB dois colegas do escritório vivem uma tórrida paixão de alguns dias. Ele está trancado em casa com o pé machucado e é misantropo e alcoólatra (na primeira versão, drogado). Ela é misteriosa e tem um namorado médico. O romance não vai adiante pois um acontecimento trágico impede que a história prossiga – e ela acaba abrupta. Essa é a sintética versão final do livro, que acabei lançando depois, já que na primeira e infindável versão existiam (vários) outros personagens.

Pois decidi mudar tudo, mantendo alguns personagens. Virgínia não era uma garota misteriosa: era uma jovem simples e até sofrida, que gostava da vida e de sexo e de se divertir. E também almejava alguma fama como repórter. O nosso escriturário também está lá, mas não é mais calado e soturno: tem uma motocicleta, aborda garotas, namora Virgínia. E o namorado de Virgínia em VB vira o terceiro vértice do triângulo em "Sexo Anal"; um terceiro elemento quase casual, mas de vital importância na história.

Mas o que levaria essa garota a ficar com um escriturário sem sal? Ele tinha que ter algo de especial. Bem, então eu tive a idéia de fazê-lo descobrir o ponto fraco da garota: ela só goza quando tem sexo anal.

Ter a idéia pode parecer ao leitor que eu sou algum grande adepto da prática ou grande conhecedor do assunto, mas não é verdade. Muita gente, num primeiro momento, acha que o livro é homossexual e que eu também sou. Nada disso. Na verdade, vinha reparando que as cenas que envolvem sexo anal no cinema ou na literatura eram sempre mostradas com violência ou algum humor escatológico. O sexo anal nunca havia sido tratado na arte com na-tu-ra-li-da-de; não podia ser algo, digamos, casual ou simples. “Naturalizar” o sexo anal dentro do livro passou a ser uma idéia que tinha mais importância que o vômito de referências culturais. “Sexo Anal” não devia ter nenhuma referência cultural, nada que demonstrasse qualquer verniz cultural do escritor ou dos personagens. O livro seria seco, natural e com tom de crônica urbana, com muitos diálogos. E o sexo anal natural no centro, com todo direito de metaforizar sobre o entorno: a merda, o cheiro, o desconforto e, talvez os próprios mitos que envolvem a tal modalidade sexual.

Eu tinha um problema: VB não caminhou por causa das contínuas idéias e do pouco trabalho: SA estava também se tornando um projeto ambicioso. Tinha que começar a escrever logo e dentro de um cronograma para não deixar a idéia morrer ou se avolumar.

O entrecho inicial veio naturalmente: a suspeita de hemorróidas levaria Virgínia ao médico. Começar com isso seria começar naturalmente. Mas a história não ia se sustentar com somente essa trama. Bem, já que Virgínia era repórter podia colocar algumas matérias quentes nas mãos delas. Aí surgiu Geraldo Assis e a idéia da “Novela Marrom”.

Fato e Ficção

Geraldo Assis é levemente inspirado em um repórter policial com quem trabalhei, assim como são vários outros personagens de SA. Porém, para conseguir ser o mais realista possível, usei duas histórias reais na trama policial do livro. O estupro e assassinato da garota por dois menores e um maior aconteceram como está no livro. Também o incêndio da casa da fazenda. Nas descrições dos dois episódios apenas as mortes dos dois menores pelos apanhadores de café foram invenção; até a morte de Santos na cadeia aconteceu de fato. É claro que os nomes foram mudados.

A exploração desse tipo de matéria nos jornais recebe o nome de “jornalismo marrom”. Fiquei imaginando como os jornais trataram a morte da família Clutter no Mississipi e se a obra de Capote, “A Sangue Frio”, não podia ser considerada uma extensão da exploração da tragédia. Quem se importa? O que importa é que Capote usou (e explorou e trabalhou e minuciou) o fato até transformar a história em Arte. A exploração de histórias violentas com sexo e crime, num romance, ainda não chegando ao status de Arte, como devia ser classificada? Inventei “Novela Marrom”.

Quase me perco no que é real e no que não é em “Sexo Anal”. O flagrante do pai que encontra o tio molestando a filha dentro do carro e quase arrebenta a cabeça do cunhado contra a sarjeta também ocorreu. E tem mais uma ou duas coisas que são reais, o resto eu inventei – a maioria enquanto escrevia.

Também tive uma namorada chamada Virgínia que teve um caso com um médico enquanto namorava comigo.

O processo

Percebi que estava com uma boa história nas mãos e que precisava deixar o pensar de lado e partir para a ação. Na época estava com muitos trabalhos de assessoria de comunicação e muito ansioso para resolver tudo rápido e sempre ficar livre no final do dia. Inverti a coisa: passei a atender meus clientes à tarde. Acordava por volta das 9h, tomava um café, passeava com meu cachorro, Nicolau Sevcenko, voltava, tomava um banho e escrevia até às 13h30. Dava cerca de duas horas de escrita diária. Aí saía, comia algo na rua e ia para os clientes. Às vezes escrevia à noite, mas era raro. Em quatro meses o livro estava pronto.

Referências e psicologia

Sempre fui fã de Ferreira Gullar como poeta e crítico. Não como analista político, isso não! Em uma de suas palestras ele disse sobre o susto, o choque que a arte pode causar para chamar a atenção e talvez extasiar. Gullar tem uma poesia que diz: “Introduzo no poema a palavra diarréia” e isso sempre esteve em minha mente quando escrevia SA: estou introduzindo no romance o sexo anal. E também, enquanto escrevia, nos cortes de cenas que o livro tem, tentei sempre “assustar” o leitor, chamar a atenção para algo que ele não estava preparado. Creio que isso foi o mais difícil, costurar esses sustos sem que eles soassem meros artifícios de escrita que estavam ali para... assustar. Acho que consegui algum sucesso, já que muita gente diz que começa a ler o livro e não consegue parar.

Estava com um problema quanto aos diálogos: achava que todos os personagens teriam a mesma “voz”, o mesmo jeito de falar. Num livro com muitos diálogos isso pode acontecer. Então usei alguns artíficos, botei algumas gírias na boca de uns, alguns com sotaques regionais e até um gago – tudo para tornar as vozes diferentes da minha. Porém o melhor recurso que usei, creio, foi roubado de Nelson Rodrigues: as reticências em resposta a algumas frases. O fato de algumas pessoas acharem que isso era novidade mostra que Nelson precisa ser relido.

Teve um momento em que eu cortava tanto as frases de diálogos e as substituía por reticências que pensei em uma conversa ela toda só em reticências. Existe um único momento de diálogo no livro em que três linhas de reticências são enfileiradas e nem eu sei bem o que quer dizer aquilo – mas certamente cada leitor tem uma explicação para elas.

(Cheguei a rabiscar um projeto para o “Livro das Reticências” só com conversas mínimas. Gostei tanto do recurso, em "Sexo Anal" que dividi os cortes de cenas no livro com reticências)

Por outro lado, muita gente apontou semelhanças entre “Sexo Anal” e Nelson Rodrigues. Foi uma influência indireta. Nelson colocava os dramas quase sempre no núcleo familiar e eu fiz questão de tirar isso do livro, deslocar a tensão sexual para os relacionamentos casuais, para o trabalho, para as obsessões que todos temos em algum momento da vida com pessoas à nossa volta. Com a independência da mulher e os novos ritmos da vida moderna, não dá para encarar, na literatura, qualquer jovem com olhar machista. Isso o livro também se propôs: a ser quase feminista. Como destacou o jornalista Pedro Doria, “é um livro de macho no qual o personagem principal é uma mulher”.

Sem contar que o fraseado de Nelson, especialmente nos diálogos, mesmo quando algum personagem diz baixarias, sempre me soa elegante demais. Se eu posso apontar uma referência real para o diálogo e algumas cenas, diria Plínio Marcos. Tive a sorte de conhecer Plinio Marcos e em uma fase fiquei meio fixado nele.

Logo que pensei em escrever SA quis ler Rubem Fonseca. Queria ver se ele tinha feito o que eu estava pensando. Comecei com o “Romance Negro” e me assustei. Primeiro por ter achado terrivelmente ruim. Segundo por ter encontrado uma cena que parecia com algo que havia planejado para Virgínia. Virgínia tem hemorróidas não pela prática do sexo anal, mas sim por ter o intestino preso. Eu pensei em uma cena em que ela dormiria com o namorado, Luiz, e, no dia seguinte, ele iria ao banheiro. E depois contaria à Virgínia que ele vai todas as manhãs e faz, diariamente, um único cocô, de cerca de 20 centímetros. E ela diria que isso era tudo que ela queria para sua vida. Em “Romance Negro” existe um trecho exatamente assim. Tirei o trecho de SA.

O intestino preso de Virgínia não é apenas pretexto para suas hemorróidas, revela um traço de sua personalidade. Ela é egoísta, manipuladora e sádica. Quem lê isso e se espanta de um autor “xingar” tão abertamente um personagem dócil como Virgínia pode se esquecer que fui eu quem a criou, então sei o que digo. Uma releitura mais aguçada vai mostrar que ela está com Luiz por uma conveniência, entra em contato com Ana por interesse, entra no jogo do jornalismo policial para crescer em cima de Geraldo e, finalmente, fica com Julio pois sabe que ele vai lhe dar mais que o namorado. Aliás, a grande pergunta que faço e que sempre confunde todos que leram o livro é: “Por quê Virgínia conta a traição para Luiz?”. Ela podia esconder a vida toda, mas conta para o namorado. É incrível que muitas pessoas considerem esse “contar” um “ato de amor” quando, para mim, é só um exercício de sadismo. Ainda que através de palavras e caras e bocas, ela diga o contrário. Pessoas mentem. Personagens mentem.

(E não podemos nos esquecer também que o sexo anal é sempre relacionado ao exercício de poder, a “retenção do pênis”, a dor da relação, etc...)

O constante desprezo de Virgínia por Ana também é uma mostra de sadismo.

O final

Lá pelo meio do livro ficou tão claro para mim como para Virgínia que o final dela seria com o dr. Júlio. E eu estava bem pronto para acabar tudo como deveria: Virgínia com Júlio em um beijo apaixonado debaixo de uma árvore na praça central da cidade enquanto os sinos batem e os pombos voam... E Luiz tirando a virgindade de Luciana com todo carinho e amor possíveis para um experiente comedor de cus. Luciana diria que era virgem realmente, mas “só aqui na frente”. E esse seria o fim.

Primeiro achei-o certinho demais, mas talvez fosse essa a graça. Depois achei que um final aberto podia gerar a expectativa de uma continuação. Assim, fiquei uns dias empacados. Não queria escrever o final e depois mudar. Queria escrever o fim definitivo – depois dar uma lida geral no livro e mandar para os amigos. Não via a hora de acabar.

Foi então que eu revi “De Olhos bem Fechados” do Kubrick com aquela frase final linda da Nicole Kidman. E tive a idéia para a frase final de Virgínia. Pensei exatamente isso: se fosse um filme, Nicole Kidman olharia para a câmera e dizia: “O amor é um pau no meu cu!”. Não pude pensar em nada melhor.

Tão logo fechei o livro, enviei para Alex Castro, Idelber Avelar e Renata Maneschy, grandes amigos. Tão logo retornaram apontando mais qualidades que defeitos, me dei por satisfeito por ter escrito um livro legal. Rafael Galvão, Alexandre Inagaki e Roberta Febran leram na sequência, assim como Ricardo Montero e Monica Ribeiro - que foi tão importante que lhe dediquei "Virgínia Berlim".

Depois de ter sido baixado 10 mil vezes, isso é tudo o que tenho a dizer.

O resto é lenda.

7 comentários:

Homem-Baile disse...

E o tempo passa rápido, hein, Bia? Ao ler esta explicação, me deu vontade de reler o SA, que - sem desmerecer VB - é a sua obra-prima. Cinema puro!
Abs!

Salvaterra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Salvaterra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luiz Roberto Lins Almeida disse...

livraço! muito bom mesmo.
Aliás, também gostei de VB, embora nunca tenha resenhado.
a frase final é ótima, fecho de ouro, para ficar num clichê. Me pegou de surpresa, fixou o texto em mim.
Grande Bia!

valter ferraz disse...

Não lí Sexo Anal, não lí Virgínia Berlin. Mas lí tudo o que se escreveu sobre eles, aqui e em outros blogs. Recomendo.
É como um filme que vc nunca viu, mas leu tanto sobre ele que nem precisa. É o caso.
Abraço forte

Salvaterra disse...

depois te mando um trecho do texto do almoço nu que acho que teve ressonância equivalente à cena dos garotos.

a telefonica me deixou 25 dias sem internet. incopetência pouca é de graça, ela se preza a destruir a paciência do assinante mesmo.

Carol Sales disse...
Este comentário foi removido pelo autor.